Descarte errado de “canetinhas' faz disparar acidentes na coleta de lixo
Só postos de saúde e algumas farmácias aceitam embalagens vazias para reduzir os riscos envolvidos
| MSNEWS/CASSIA MODENA / CAMPO GRANDE NEWS
O apelido simpático de “canetinhas' dado às embalagens dos medicamentos emagrecedores injetáveis faz esquecer que elas contêm agulhas para aplicação, muitas vezes descartadas de forma errada após o uso. Tanto é que o número de acidentes com materiais perfurantes e cortantes durante a coleta de lixo residencial saltou de um a dois para 10 por semana, segundo dados divulgados pela Solurb, a concessionária de limpeza urbana de Campo Grande.
Por menor que seja, o ferimento pode causar infecções sérias nos trabalhadores da coleta. Eles precisam parar o que estão fazendo, lavar o local imediatamente, ir ao pronto-socorro e fazer todo um protocolo para prevenir doenças transmitidas a partir desse tipo de contato.
O lixo comum não é o lugar certo para se livrar das canetas de Ozempic, Mounjaro e outros medicamentos do gênero indicados para pessoas que precisam perder peso ou têm diabetes tipo dois. Instruções sobre como descartar estão nas bulas que acompanham os produtos, inclusive nas dos que não têm venda autorizada no Brasil.
Mas nem todo lugar - Algumas das farmácias da Capital que vendem emagrecedores registrados na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não aceitam ficar com as canetas vazias que seus próprios clientes trazem de volta. Relato de uma mulher que chegou à reportagem afirma que as da rede Drogasil se negaram a receber o Mounjaro certificado.
“Uma farmacêutica ligou para a gerência regional em Campo Grande, que confirmou a impossibilidade, alegando que a caneta não entrou na lista da logística reversa', disse a cliente, que preferiu não se identificar.
Para conferir, a reportagem esteve numa unidade da mesma rede localizada no Bairro São Francisco e questionou um farmacêutico sobre o local de descarte. A resposta foi que nenhum material perfurocortante é recolhido. A farmácia aceita apenas medicamentos de outros gêneros quando vencidos ou as embalagens dos que já foram usados por completo.
Já a assessoria de imprensa da RD Saúde, empresa que controla a Drogasil e a Droga Raia no País, afirmou que o problema é a falta de um programa de coleta próprio para as canetas.
“A RD Saúde não tem um programa específico para logística reversa de medicamentos à base de GLP-1. Consumidores que adquirem o medicamento precisam estar atentos às normas vigentes e realizar o descarte correto desses materiais. Agulhas de canetas emagrecedoras são classificadas pela Anvisa como resíduos perfurocortantes e devem ser descartadas em UBSs (Unidades Básicas de Saúde) ou em outros pontos de coleta apropriados para resíduos de saúde, garantindo a destinação segura e ambientalmente adequada', disse em nota.
Perto da Drogasil do São Francisco, a USF (Unidade de Saúde da Família) 26 de Agosto aceita as canetas emagrecedoras, desde que acondicionadas em recipientes para proteção, como garrafas PET. O descarte, no entanto, só pode ser feito de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, que é o horário de funcionamento daquele e da maioria dos postos de saúde da Capital.
No Bairro Amambaí, a reportagem consultou um funcionário de farmácia da rede Pague Menos sobre a possibilidade de descarte. Segundo ele, são recebidas apenas agulhas em pequenas quantidades naquela unidade, já que a empresa que faz o recolhimento estipula uma cota mensal que não pode ser ultrapassada.
Na Vila Sobrinho, mais afastada do Centro, as canetas são aceitas na Farmácia São Leopoldo também quando entregues dentro de um recipiente seguro. A farmacêutica responsável por uma unidade anexa ao posto de combustível São Leopoldo, Fernanda da Silva, explica que a medida atende ao que a Vigilância Sanitária pede. “Toda a rede recolhe para evitar o descarte incorreto no meio ambiente, que contamina o solo, pode chegar ao lençol freático, sem falar no risco de acidente com as agulhas', disse.
Lei não alcança - Em tese, todas as farmácias devem receber qualquer tipo de medicamento vencido ou resíduo dos usados. Mato Grosso do Sul tem a lei estadual nº 4.474, de 6 de março de 2012, alterada pela Lei nº 5.180, de 12 de abril de 2018, que obriga os estabelecimentos a isso. Cabe à Vigilância Sanitária Estadual a fiscalização do cumprimento.
Assessor técnico do CRF/MS (Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul) e membro do órgão sanitário, Adam Adami avalia que “aparentemente a lei não está alcançando o dispositivo de aplicação das canetas emagrecedoras' e que os fabricantes devem se atentar a isso para ficarem dentro das normas.
Mas isso não é exclusividade de Campo Grande. Segundo ele, em todo o Brasil, “ainda é tímida a aplicação da Política Nacional de Logística Reversa de Medicamentos', que determina que as fabricantes instituam programas de descarte dos medicamentos vencidos e de reaproveitamento de embalagens vazias.
“Mato Grosso do Sul saiu na frente da política nacional com a lei estadual, enquanto o sistema nacional de Logística Reversa de Medicamentos vem sendo implementado no Brasil desde 2020', ele observa. O sistema está previsto no Decreto nº 10.388/2020, sendo que a instalação deve ser gradual e progressiva em pontos fixos de recebimento de medicamentos vencidos ou em desuso, de uso humano, industrializados e manipulados, e de suas embalagens após o descarte pelos consumidores.
Ainda segundo a política nacional, deve haver um ponto de descarte para cada 10 mil habitantes nas cidades. Em Campo Grande, essa proporção nas farmácias está bem abaixo do necessário. Há apenas 46, conforme levantamento do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos). Considerando que a Capital tem quase 1 milhão de habitantes, de acordo com o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número ideal seria de 100 pontos, pelo menos. É preciso instalar mais que o dobro dos existentes.
Adam reforça que os medicamentos emagrecedores devem ser considerados perigosos e tratados de maneira adequada, ainda mais considerando sua popularidade e o fácil acesso, que hoje é uma realidade. “Quando uma agulha perfura a pele de alguém, mesmo que tenha uma quantidade mínima de sangue, ainda há risco de infecção por hepatite e HIV, por exemplo. A questão maior realmente é a do lixo, do plástico, que é um problema mundial', resume.



